Eu e o padre
Era minha primeira vez naquela cidade. Madri. Era minha primeira vez na Espanha. Estava viajando sozinho, como tanto gosto. Era uma segunda-feira. O sol de agosto, alto verão na região, derretia até o cérebro. Aquele céu azul, aquelas ruas arborizadas, aqueles homens e mulheres andando com tanta tranquilidade pelas ruas. Tudo me inspirava. Tudo me inquietava. Eu andava pelas ruas e ia parando a cada café charmoso que via. Então me sentava, abria meu caderno de anotações e passava a escrever tudo o que eu vi passar. Os homens, as mulheres, as cenas. Um deslumbre.
Em um momento, andando pela avenida Paseo de La Castellana, via que corta Madri e dá acesso à região dos museus e dos bairros antigos, parei em um café que fica bem no meio do canteiro central. Pedi meu café para um garçom lindo. E abri meu caderno de anotações como fazia a toda parada. Anotei a data, o endereço, a hora. Escrevi sobre o calor que estava sentindo, sobre o ar parado, e como os espanhóis são espertos em instituir a siesta. Escrevia absorto. Até perceber que um homem me observava. Ele estava sentado em um banco público, destes comuns em praças, sob a sombra de uma árvore.
Não queria encará-lo, mas consegui com algum esforço reparar no cara. Ele certamente tinha mais de 30 anos, mas ainda não havia rompido os 35. Usava calça social e camisa azul clarinha. Era forte, mas não muito, muito branco e cheio de pêlos pretos nos braços. Era barbudo, tinha traços fortes, uma boca rosada e sobrancelhas grossas que lhe garantiam um ar fechado, quase raivoso.
Não fazia ideia do por que ele me olhava, mas nada parecia ser paquera. Afinal, ele não apresentava nenhum sinal de que gostava de sexo com outro homem. Ao contrário, parecia não gostar nada desta ideia. Continuei a escrever. Agora sobre aquele homem. Nem me importava mais em ser observado, mas também não me sentia confortável com aquilo. A certa altura, olhei firmemente nos olhos dele e fiz uma expressão que deixou clara minha insatisfação. Ele sorriu, levemente, e me desmontou.
Levantou de seu banco e veio calmamente em minha direção com o mesmo sorriso leve. Estendeu-me a mão. Eu cumprimentei-o, ainda ressabiado. Ele perguntou em bom espanhol se poderia se sentar. Eu respondi em bom portunhol que sim. Só então o cara percebeu que eu não era dali. Perguntou de onde eu vinha, e eu respondi que era brasileiro, de São Paulo. Ele disse que ficou curioso sobre o que eu tanto escrevia. Perguntou em seguida se poderia pedir um café. Eu respondi que sim, claro, e que escrevia apenas observações da viagem, bobagens.
Viajo sozinho e ao escrever é como se estivesse contando para alguém minhas experiências. Ele disse que compreendia e que também escrevia muito, em muitas situações. Ali de perto, pude observar melhor o quanto aquele homem era atraente. Seu antebraço era tão forte que esticava o punho de sua camisa. E muito peludo. Os pêlos também saiam pela camisa e sua boca era suculenta. Seu olhar era fixo, duro, inquisidor. Ele disse que morava ali perto e que não trabalhava as segundas, por isso, passava aquela tarde caminhando e observando. De alguma forma, eu e ele estávamos fazendo o mesmo: deixando o tempo passar naquela tarde quente de verão europeu.
Ele fez questão de pagar meu café e me convidou para caminhar pelo bairro. Disse que apresentaria uma série de construções antigas e históricas que havia ali por perto e que faria aquilo por gostar muito do Brasil e dos brasileiros. Eu consenti. Passamos a caminhar pelas ruas laterais da avenida, passamos por uma minúscula igreja, muito linda, medieval. Fomos subindo pelo bairro ele ia me mostrando as construções. Mostrou um local onde trabalhava Picasso, onde ficava a casa de Cervantes, do terrível general Franco e assim por diante. A um momento disse que estava chegando a sua casa e que fazia questão de me mostrar suas obras de arte. Eu aceitei.
Sua casa era uma graça, pequena, mas muito arrumada. Cheia de móveis de madeira e muitas obras sacras. Ele pediu para que eu me sentasse e foi até a cozinha. Trouxe dois copos de suco e se sentou na minha frente. Antes disso, desabotoou e tirou sua camisa. Por baixo, ele usava uma regata branca. Era um homem delicioso, malhado, com o peitoral bem peludo. Pegou então um óculo de grau e me mostrou seus cadernos de anotações. Eram muitos e estavam dentro de várias caixas. Deu-me um dos cadernos e sentou-se ao meu lado, no braço do sofá. Seu braço roçou o meu e foi inevitável sentir um choque.
Ele percebeu. Perguntou se eu gostaria de tirar a camisa que ele me emprestaria uma regata mais arejada como a dele. Eu aceitei. Ele trouxe uma regata branca. Eu tirei minha camisa e ele me ofereceu a regata. Como eu estava suado, ele me ajudou a coloca-la. Ao fazer isso, me abraçou por trás e roçou sua barba em minhas costas. Eu permiti. Então me virei para ele e demos um dos beijos mais longos e sôfregos que minha memória registrou na vida. Um beijo molhado, bruto, quase violento. Senti que ele já estava de pau duro pelo volume de sua calça. O meu explodia. Tiramos as camisetas e deixamos nossos corpos se roçarem e se esfregarem.
Ele me deitou no tapete da sala e terminou de tirar minha roupa, meu tênis, minha calça, minha cueca. Segurou firme no meu pau e olhou mais uma vez nos meus olhos. Então engoliu todo ele de uma vez. E ali ficou por minutos, sem se cansar, sem pressa, aproveitando cada milímetro como queria. Eu só gemia, mas de leve. Depois de muito tempo, ele voltou a me beijar, deitando-se em cima de mim. Só então tirou sua roupa. Observei que seu pau era enorme e muito peludo. Uma delícia.
